• Leonardo Wandemberg

Maníacos do parque.

Atualizado: 11 de Set de 2019


A notícia que abalou os cearenses nesta semana, e tomou proporções nacionais, quiçá mundiais, foi a morte de um turista após um acidente em um brinquedo recém-inaugurado de um famoso parque aquático. Não um parque qualquer, mas “apenas” o maior da América Latina, que, a cada dois ou três anos, investe milhões de reais em novas atrações, e contrata gente famosa para fazer sua divulgação, fomentando fortemente a economia local.


Os jornais iniciaram o dia revelando preocupação com o impacto dessa tragédia no turismo da região, que sempre foi significativamente alavancado por aquela autêntica pérola do lazer incrustada em nosso cenário tropical. Todavia, para a enorme surpresa de todos, na sua reabertura após um curto luto de 24 horas, o movimento do parque se mostrou intenso, inclusive, por conta de gente que não comprou ingresso com antecedência.


As pessoas não pareciam sensibilizadas, comovidas, ou mesmo preocupadas, mas insistiam em apontar, quase que com “orgulho”, o local onde aconteceu o infortúnio. Todos queriam ver o (bru)tal "brinquedo assassino"! Sim, ele permanecia interditado, pois precisa ser periciado. Mas alguém duvida que as filas serão quilométricas quando finalmente for liberado (o que é óbvio que irá acontecer, já que custou 15 milhões de reais)? E haveria um título mais sugestivo para os ímpetos mais radicais do que “vai encarar”? Afinal, se já "morreu um", será maior a emoção e o desafio para os insanos e incontidos amantes da adrenalina! (Sugestão de novo nome: "Vaissikagá".)


Eis o grande poder do marketing, que molda o mercado e as cabeças; sobretudo, aquele espontâneo, não planejado, descapitalizado – às vezes, "decapitado" –. A mente humana parece se sentir ainda mais seduzida pela desgraça quando essa ganha repercussão. Isso apenas reforça a máxima praticamente infalível do “falem bem ou falem mal".


Ouso dizer, e não é uma ideia minha, que não existe publicidade negativa. Não que eu pretendesse que o parque “falisse” depois do evento, até porque não tenho interesse nisso, já que sou um dos seus grandes apreciadores. Venho apenas chamar a atenção para esse curioso fenômeno humano, social e antropológico.


Particularmente, passei a sentir um medo real, pois estava me programando para conhecer aquele fatídico brinquedo. Entendo que, se algo deveria oferecer total segurança com base científica, mas, na verdade, expõe o indivíduo a todo o risco já confirmado por um brusco falecimento, haveria de ser evitado, não procurado. Mas continuará sendo!


Em comparação a um acidente numa viagem de avião – que, no geral, é bem menos facultativa do que um dia no parque –, a morte de um indivíduo em um brinquedo assume dimensão infinitamente menor no sentimento das pessoas. Não se ouve clamores ou exigências por “justiça”! Aceita-se passivamente a "fatalidade", quase como se a culpa pelo evento fosse de quem confiou na física (e nos instrutores), apenas por querer se divertir por alguns segundos.


Se, nos primeiros dias, as coisas parecem “tranquilas”, com o tempo, as pessoas esquecerão completamente do perigo, e tudo voltará ao normal, sobretudo financeiramente. Mesmo com baixas, aquele (Jurassic) parque não perderá visibilidade, tampouco popularidade. Muito pelo contrário! E o nefasto efeito de atração pelos incidentes midiáticos continuará retroalimentando a estranha mania de não haver critério plausível, sequer respeitando o lado humanitário, para a busca pelo badalado.


Muitas donzelas continuarão enviando cartas e ansiando bodas com Francisco de Assis Pereira; tantos outros permanecerão, com afinco, à caça de uma cobiçada selfie junto a Bruno Fernandes das Dores de Souza; e também com a filha do Manfred, que mais parece obra do Alfred. Antes venerar o suspense do Hitchcock* que o sursis** da Richthofen!


*Um dos clássicos de Alfred Hitchcock é Vertigo, cujo título no Brasil, ironicamente, é... "Um Corpo Que Cai"!


**Suzane Louise Von Richthofen não faz jus a sursis. Foi apenas analogia a um benefício judicial.


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Foto: Leonardo Wandemberg.

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