• Leonardo Wandemberg

Feliz ano de novo!

Atualizado: 13 de Set de 2019



Sem querer menosprezar a importância que o mundo inteiro dá à ocasião, vejo na passagem de ano apenas outro marco temporal formal para se tentar reparar as falhas da vida, o que, para a maioria das pessoas, sequer chega perto de acontecer. Comemorar o ano novo parece decorrer da necessidade humana de ter uma referência cronológica para seguir em frente sem parecer estar andando em círculos.


Todo mundo diz que será alguém melhor, mas é difícil fazer isso sem trapacear. Muitos se esquecem da promessa logo no dia 2 (ou no dia 1º mesmo, quando acordam ressacados). Alguns, na verdade, até pioram! Pois é sempre preferível pedir que coisas boas sejam atraídas gratuitamente, apenas pela cor da roupa, do que se propor a arcar com o ônus de fazer o que é necessário para a concretização dos desejos.


Duas frases clássicas de quem diz buscar mudanças de atitude são as famigeradas "segunda-feira eu começo" e "ano que vem será diferente". Curiosamente, neste Réveillon, ambas convergem justo no 1° de janeiro (até superlua tem). Então, o que você já fez de diferente hoje? Eu, por exemplo, escrevi este texto inteiro durante o banho!


Concordem ou não, a festa de Réveillon não é mais que uma reprise anual (como os casamentos, que são sempre iguais, mas, ainda assim, cada casal deseja ter sua própria festa). Tudo é idêntico: os fogos, as roupas, as promessas, os desejos e os cachorros desesperados. Não há, nessa comemoração, nada capaz de garantir que o ano que se inicia será de fato melhor. É mera convenção esotérica, simbolismo épico, ou simplesmente pretexto etílico.


Não adianta usar roupa branca tendo o coração turvo. Muitos vão à praia mergulhar em plácidas águas, embora esqueçam de lavar as persistentes mágoas. Com o perdão do abuso das rimas, já que isto não é poesia, um ano melhor não é fruto de grandes solenidades, é construído no dia a dia, a partir das menores atividades.


Particularmente, não espero que 2018 seja marcado por feitos notáveis. Entretanto, sem conseguir fugir do clichê, estou certo de que será tempo de descobrimentos, reflexões e importantes decisões. Momento de encarar velhas pendências e novos desafios. E nada disso foi idealizado em 31 de dezembro, mas construído durante todos os tropeços de 2017. Afinal, com exceção de quem ganha na "Mega da Virada", ninguém muda a vida assim, da noite para o dia!


Pode parecer misticismo, mas ano par parece vir pra limpar! Ou eu disse isso só para rimar? De todo modo, geralmente, esses são os anos decisivos, de eleições a competições esportivas. Até o bissexto (com um dia a mais, que o torna par) é sempre par. O que significa? Sei lá!


Não ouso dizer que estou diferente de ontem. Prefiro acreditar que estou diferente de depois de amanhã, pelo esforço que me proponho a fazer amanhã para me tornar diferente de hoje. Que neste ano terminado em "8" – conhecido, pela sua grafia cíclica, como "número do infinito" – a gente não se deixe repetir.


Mesmo com receio de estar sendo piegas, e fazer trocadilhos que podem já ter sido pensados neste vasto oceano da Internet, emana do meu coração o sincero desejo de que seja um ano de menos superstição e mais ação; menos despeito e mais respeito; menos embaraço e mais abraço; menos ciúme e mais se ame; menos inveja e mais reveja; menos vaidade e mais verdade; menos fofoca e mais se foca; menos intriga e mais entrega.


Não se leve somente pelo tom lírico; para ser leve, tem que tornar tudo isso empírico. Faça com a alma, e também com calma; afinal, em nossos conflitos, ou a gente respira, ou pira. Quero um ano de menos olhar para os vizinhos e mais para o espelho. Não para se admirar, mas para se reformar dos próprios espinhos. Um ano de mais vivência real, de menos sobrevivência por aparelhos!


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Foto: Leonardo Wandemberg.


Obs.: foto reciclada de outro ano (são todos iguais)!

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